Coletânea “Interlocuções Socioeducacionais” é lançada em Valença

Obra coletiva tem a participação de educadoras do município de Valença.

Kawo-Kabiyesile lançou em Valença, no último sábado, 7, a coletânea Interlocuções Socioeducacionais, organizada pela escritora Angela Moraes Cordeiro Sena com a colaboração de mais de 20 autores. A solenidade de lançamento ocorreu no Centro de Cultura Olívia Barradas, e contou com a presença do editor chefe e autor Raphael Fontes Cloux, das autoras Thainã Porto, Angela Sena e Marta Nogueira. Numa parceria com a Prefeitura de Valença, o lançamento contou ainda com apresentações de manifestações culturais da música, poesia e dança afro.

Editor-chefe Raphael Cloux apresenta livro

Editor-chefe Raphael Cloux apresenta livro.

O editor chefe Raphael Cloux abriu o evento apresentando um pouco da Kawo-Kabiyesile e do trabalho que ela vem realizando ao longo dos seus oito anos de atuação no mercado editorial. “Temos o grande desafio de buscar reverter um pouco a forma como a publicação editorial brasileira e mundial tem sido feita. Atualmente a maior parte dos escritores brasileiros são homens, com dados de 2017, 85% dos escritores são homens, então assumimos o desafio de reverter isso, não é fácil, não é simples mas temos quebrado, temos mais de 60% de autoras femininas escrevendo. Pra gente isso é uma realização muito grande, não é a toa que temos três mulheres aqui como autoras, então o que essas mulheres estão fazendo aqui hoje é um março muito grande”, ressaltou o editor, trazendo à tona apenas uma de muitas outras perspectivas sociais que a editora tem se comprometido. A Kawo-Kabiyesile tem como objetivo contribuir para a transformação da sociedade mundial através da difusão de saberes.

“Essa coletânea foi fruto de muito esforço e de muito suor. É m pouquinho da história de vida de cada um, sempre que a gente escreve a gente coloca um pouquinho da gente dentro do texto, e esse momento quando a gente faz um lançamento é um momento em que a gente está compartilhando algo que é muito intimo nosso com o mundo, pra gente é um orgulho muito grande poder compartilhar esse momento com vocês”, afirmou Cloux sobre o Interlocuções Socioeducacionais, que teve seu primeiro lançamento na Universidade Interamericana, no Paraguai, em janeiro passado.

Ainda sobre o movimento editorial proposto, o editor destacou o desafio de produzir livros no estado da Bahia, visto que 75% da produção editorial de livros fica no eixo Rio-São Paulo. Apesar das dificuldades, Raphael Cloux afirma que a sua editora tem conseguido dar grandes passos. “Hoje temos autores em três continentes, isso pra gente é um orgulho muito grande. Abrimos um concurso de redações envolvendo todos os países de língua portuguesa, que serão publicadas num livro, com isso estamos conectando o mundo com troca de saberes, troca de conhecimentos literários, e claro, respeitando as diversidades”, pontuou.

As escritoras presentes, duas delas professoras da rede municipal de Valença, expuseram um pouco sobre suas participações na coletânea, apresentando a temática abordada em seus respectivos artigos.

Ângela Sena, que além de autora também é responsável pela organização da coletânea, destacou que “o acesso pra você ser um escritor e produzir um livro é muito caro, e, às vezes, o retorno acaba não compensando, porque a gente ainda é um país de, infelizmente, pouca leitura. Agora com a internet é mais uma barreira e cabe a gente não deixar que isso aconteça, que tenha internet sim, mas que o livro físico não morra”, desabafou.

Nesta que é a quinta publicação de Angela, a autora assina o capítulo “De objeto a sujeito: A importância da educação na aprendizagem de alunos apenados”, onde compartilha suas experiências enquanto educadora na Penitenciária Lemos Brito, em Salvador.

assinatura“Eu trago como proposta a minha realidade, os absurdos que eu vejo todos os dias e queria dar voz a esses absurdos. Nós somos ignorantes em relação à realidade carcerária, temos dentro da gente o espírito da vingança. Você que é empresário, chega um ex-presidiário querendo uma segunda chance, você dá essa segunda chance? Difícil, são raras as pessoas que tomam essa atitude, a sociedade está sendo burra, porque se não dá uma segunda chance, ela está contribuindo pra que esses absurdos permaneçam e é aí que eu entro fazendo essa denúncia, acorda sociedade, se o crime está do jeito que está, é porque a gente está contribuindo pra isso em pequenas atitudes”, alertou a educadora, acrescentando: “A educação entra justamente pra trabalhar questões que foram perdidas ou que nunca foram trabalhadas, temos muitos homens na faixa de 40 a 50 anos que nunca pisaram na escola, e pisam na escola pela primeira vez dentro do sistema penitenciário”.

“Cabe à escola o papel de despertar o interesse dos educandos pela leitura e escrita. Só assim poderemos ter indivíduos aptos a ler criticamente a realidade, com maiores perspectivas de crescimento, na busca por uma melhor qualidade de vida, em uma sociedade cada vez mais consciente e justa”, afirma a autora nas considerações finais de seu artigo.

Já a autora Marta Nogueira, que é gestora da Escola Municipal Manoel Marques, em Valença, trouxe para o debate o tema “A representação dos afrodescendentes nos livros didáticos após a Lei 10.639-03”, título de seu artigo que compõe a coletânea.

“Eu venho falar sobre algo que me inquietou a vida toda, até porque eu sou historiadora, e sempre me perguntava quando pegava os livros de história, porque não se fala da religiosidade africana, nada mais justo que no meu dia a dia, na sala de aula perceber que realmente os livros de historia não tratam esse assunto como deve, apesar de hoje existir uma lei que obriga os professores a trabalhar esse assunto na sala de aula. Porque esse negro que ao longo da historia sempre foi sofrido não tem a sua religião colocada de uma maneira diferenciada. Diante dessas minhas inquietações é que eu coloco essa questão?”, explicitou Marta.

A autora conclui em seu artigo que, “a sociedade brasileira, de modo geral, deverá dar prosseguimento à ação eu não concerta, mas expõe, de forma desmitificada, o sacrifício de um povo. Cabendo cuidado e vigilância, para que os livros didáticos não continuem sendo instrumento de manobra. Logo, espera-se que posam gerar, além de conhecimento, noções de justiça, liberdade e solidariedade”.

Também de Valença, a professora da rede municipal, Thainã Porto dos Santos, descortina em seu artigo, soluções e mediações para conflitos em sala de aula, a exemplo da violência. Seu artigo intitula-se: Intervenção do serviço social no espaço escolar: possibilidades e limitações.

“Eu fico perplexa de ver colegas que não sabem de tantos benefícios que podemos usufruir e que não cobramos as autoridades porque, ou não os conhecemos, ou não sabemos os caminhos de exigi-los. Nesse artigo, eu consigo elucidar isso de uma maneira bastante didática. O ambiente educacional pra quem trabalha nele, tem sido ostensivo, perverso conosco, e estamos nos permitindo ser intimidados e não podemos fazer isso. Não preciso descrever os problemas que envolvem a nossa comunidade, todos nós estamos bem a par do que está acontecendo, estamos com medo, mas precisamos reagir, e o reagir tem que partir da burocracia, exigir o que a Constituição diz, o que as instituições podem fazer por nós e se nós fizermos isso, não só os profissionais da educação, mas toda a sociedade, se cada um der a sua contribuição, a escola que é a segunda casa dos nossos filhos, ela será um cenário totalmente diferente”, discursou a professora.

Uma das atrações culturais propostas pela secretaria de Cultura de Valença – representada na ocasião pela secretária Janete Vomeri – a dança afro ganhou vida no corpo da dançarina Célia Praesent. “Pra mim é um prazer estar sempre mostrando e valorizando minha cultura, minha origem que é muito importante, principalmente nesse mês de abril que é o mês da dança”, afirmou Praesent.

Em entrevista ao Jornal Valença Agora, o editor chefe Raphael Cloux comentou acerca dos meandros da plataforma impressa, que rege suas publicações. Confira:

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Raphael, como é a arte de ter uma editora e trabalhar com livro impresso?

É um desafio maravilhoso, desafio porque produzir livros impressos no Brasil e a partir do nordeste não é uma tarefa muito simples, ainda mais o desafio que a gente tem que é produzir para o mundo, hoje já temos autores de três continentes, são cerca de 14 países, mas, é maravilhoso quando a gente pode permitir um momento como um lançamento de livro onde a gente cria conexão entre o autor que escreve e um público potencial leitor que vai lê-lo num outro momento, então essa conexão é maravilhosa porque é exatamente o principio fundamental de uma editora, é você fazer com que o livro venha à tona, que haja um leitor e que leia esse livro.

 

Independente da contribuição filosófica, na prática, o que é que o livro físico contribui diretamente para o processo educacional e o equilíbrio da formação dessa sociedade?

O livro físico é uma mídia que hoje se debate muito se ela ainda é uma mídia plausível, se ela não já foi superada, por conta, obviamente do formato digital, mas eu acredito que o livro físico ainda ocupa um espaço muito importante e cria uma repercussão que é fantástica, completamente diferente da gente lançar um livro virtual em termos de mobilização, a realização de sonho, quando você vê um autor emocionado porque ele vê o filho dele impresso, isso é algo que o livro impresso não foi superado ainda e, evidentemente que a gente consegue fazer uma conexão, nessas conexões educativas, culturais, isso amplia a possibilidade também de outras pessoas terem formação, terem conhecimento, e refletirem sobre determinadas questões e isso amplia a formação do ser humano, do indivíduo, e isso é um papel que o livro físico, impresso, ainda tem muito grande na sociedade, no sentido da formação da sociedade, mas também numa dinâmica cultural.

 

Você traz uma questão que mexe com o sentimento, com valores, com a estrutura, coisa que o online não proporciona. O que mais você pontuaria da permanecia e da existência das plataformas impressas?

Certamente é um desafio ainda maior você manter isso, tendo em vista que a gente tem, por exemplo, jornais tradicionais do país sendo quase que fechados ou praticamente em falência, mas o livro, ele ainda tem um espaço que é formidável. Eu me lembro de que no início quando a gente montou a editora, diziam que a gente ia produzir livros que no máximo iam circular Salvador, quem dirá a Bahia que é muito grande, e hoje, a gente está em três continentes com autores, mas nossos livros hoje estão nos cinco continentes. Essa barreira que em tese diziam que o online quebra barreira e que o livro impresso estaria superado porque ele não teria essa capacidade, são outras vias, são outros eixos de comunicação que o livro impresso ocupa e que o livro virtual não consegue ocupar, ele vai ocupar outro espaço, não de superação, mas vai sim ocupar outro espaço, mas como você falou, numa dinâmica um pouco mais fria, de pouco contato.

 

Três pontos. O primeiro ponto: Há uns 30 dias foi reaberto o jornal do Brasil do Rio de Janeiro, que foi o primeiro jornal do Brasil. Segundo ponto, o Facebook está passando por uma crise terrível, a exemplo que é a playboy tirou todas as suas contas da rede social e vai investir cada vez mais no impresso, abdicando parte da vertente de mídia eletrônica. E o último ponto: Quando surgiu o computador, se dizia que o papel ia acabar, e muito pelo contrário, ao longo dos anos a gente percebeu que aumentou muito mais o consumo do papel. Como você avalia esses três pontos?

De fato, ainda temos uma crise nos jornais, eu acho que o novo momento de você ter mais mídias disponíveis, que é uma certa democratização, a gente tem que levar em consideração isso, que não são apenas grupos que controlam essa informação, hoje a informação está muito mais desconcentrada, evidente que os grandes conglomerados ainda exercem uma influencia forte, mas, isso fez com que os jornais também tivessem que se reinventar. Em todo processo de agitação, de caos, ou as mídias tradicionais se reinventam, ou elas podem ser derrubadas. Alguns jornais fecharam, nós temos alguns jornais aqui na Bahia que não fecharam ainda por muita resistência dos seus membros diretivos, como o Tribuna da Bahia, mesmo o Jornal A Tarde que passa por situação muito complicada, mas, por exemplo, o Correio da Bahia se reinventou, saiu de um formato e foi para o formato de tabloide, reduziu os custo e com isso ele despontou ocupando um espaço que antes era do jornal A Tarde, do ponto de vista de vendagem. O efeito que uma nova mídia coloca, é no sentido de reinvenção de uma forma de fazer tradicional, os jornais impressos não acabaram, mas muitos tiveram que se reinventar como uma estratégia de sobrevivência. Pra gente, as redes sociais são fundamentais, então não há um antagonismo entre se fazer uma mídia impressa que seria uma mídia mais antiga e não trabalhar com redes sociais, isso não existe, é até uma questão de conexão com o mundo. Há espaço para convivências mútuas.

 

Então, o que está acontecendo com todas essas informações, essas pontuações suas, não existe ainda uma visão real dentro de uma coerência de como vai ficar esse mercado. Ninguém hoje pode dizer que é o ‘doutor’ de abrir a boca e dizer como o futuro vai acontecer.

Eu arriscaria dar um palpite no sentido de que tem que ter capacidade de flexibilidade e entender o movimento da sociedade, se você não entender a conjuntura, aí de fato você pode ficar fora do processo, isso não só do ponto de vista de finanças, de mercado, mas do ponto de vista mais amplo. Evidente que ninguém pode querer ousar sem um Nostradamus pra prever o futuro das coisas, mas fazer a leitura da conjuntura é importante pra fazer as transformações necessárias.

 

Fotos: Jornal Valença Agora

 

*Conteúdo incluso na edição impressa, nº 676, exceto entrevista.

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